A verdade e a prova técnica
10/01/2014 - 10:50

O fundador da criminalística, Edmond Locard, ensinou que todo contato deixa vestígios. Esse fato científico é a base do trabalho pericial, que visa descobrir a verdade dos fatos a partir dos vestígios encontrados no local. Sem a perícia, só o que se tem é o diz-que-me-disse, as fofocas, as versões de partes e de testemunhas duvidosas.

Tive recentemente ocasião de ler os laudos periciais do acidente que vitimou JK, bem como de conversar com o perito responsável pelo exame de local – Dr. Sérgio Leite – e com um dos peritos que participaram dos exames de laboratório – Dr. Negrini, decano da perícia paulista. É um dos casos em que a perícia pôde discernir perfeitamente, a partir dos vestígios, toda a dinâmica de um evento. Marcas de derrapagem, a análise das deformações dos veículos e as transferências de tinta dos veículos envolvidos – no caso, resquícios de uma tinta à base de alumínio, característica dos ônibus de uma determinada companhia – levou à descoberta até mesmo de um veículo que havia se envolvido no acidente e se evadira do local. Um trabalho pericial magistral, como reconheceu na época a própria esposa da vítima, Sarah, que escreveu à mão uma carta de agradecimento aos peritos.

Não é difícil imaginar a pressão sofrida por eles: a morte de uma figura pública, mais ainda em um tempo politicamente turbulento, inevitavelmente atrai todo tipo de atenção. O trabalho pericial, contudo, é eminentemente técnico. A perícia trata de dados objetivos, de transferências de material (uma marca de derrapagem é a borracha dos pneus deixada no chão, por exemplo); de coisas tangíveis, não de hipóteses ou de memórias, frequentemente traiçoeiras.

É isto o que faz com que a perícia seja necessariamente isenta: quem quer mentir foge da perícia, desmancha o local e elimina as evidências. Afinal, uma falsa perícia é sempre facilmente discernida pela incompatibilidade entre o registrado e o concluído. Se um perito mentir, será sempre uma mentira de pernas curtas.

A decisão da “Comissão da Verdade” paulistana – que simplesmente ignorou o trabalho pericial e as conclusões das diversas comissões anteriores que se haviam debruçado sobre o caso e, evidentemente, deram razão aos peritos – de dizer que JK foi assassinado “porque sim” está abrindo um perigoso precedente. A verdade, comprovada técnica e cientificamente, está dando lugar a uma falsa “verdade” definida por questões políticas. Hoje é JK; e amanhã, o que será? A verdade é uma só, e é à perícia que compete discerni-la.

*Reproduzido da página virtual do jornal Gazeta do Povo - coluna de Carlos Ramalhete de 09/01/2014.